Ser indivíduo é ser portador de múltiplas identidades. Dependendo da hora e local as acionamos. O que nos define (?) é a multiplidade, possibilidades de combinações e como lidamos com elas. Até ai tudo bem ou não, mas a minha questão não é definir indivíduo, mas em pensar o que nos torna visíveis e nos destaca do anonimato protetor do mundo contemporâneo. Afinal de contas, falamos muito o "vê se me erra", mas adoramos o reconhecimento.
Complicado não? Tem gente que acha que é o carro do ano, as boas roupas, a conta bancária... Cada um tem uma percepção de gente e uma forma própria de se fazer perceber. E perceber gente é olhar e ver e isso só fazemos de acordo com os nossos interesses. Uma forma de ver quais são os nossos marcadores de percepção é tentar descrever um novo amigo: quais as primeiras coisas que verbalizamos? É um exercício interessante e dá pistas sobre quem somos, o que vemos nas pessoas e até um pouco do que queremos dos nossos relacionamentos.
Olhar e ver vão além dos sentidos ou da acuidade visual. Todo ano vou ao oftalmo e até agora ele diz que eu estou legal e mesmo com a minha idade já um pouco avançada, eu ainda não preciso de lentes, rsrsrs. Mas quem é que vai medir a minha miopia social? É justamente ela que mais me preocupa e é para ela que eu vivo procurando tratamento. Na falta de remédios e tratamentos, vou usando minhas experiências e leituras para medi-la.
Anos atrás, mas anos mesmo, li no Jornal do Brasil uma entrevista com um então estudante de psicologia a respeito de um trabalho que ele estava fazendo na USP. Essa entrevista me marcou e muito. Em linhas gerais, o estudante regularmente trocava o seu crachá de estudante universitário e quando falo de crachá de estudante falo em roupas, poses e atitudes e vestia um uniforme de gari e passava a varrer o campus. Bem, como estudante ele até que se descrevia como bem popular, mas como gari... Como gari, ele não existia. Simplesmente ele deixou de existir, de ser conhecido e reconhecido como o Fernando Braga graças ao uniforme e vassoura. Ele era olhado, mas não visto. Aliás muitos sequer lhe dirigiam o olhar ou se lembravam de cumprimentá-lo. Reconhecê-lo então como o Fernando... Sem chance. Tomou esbarrões sem pedidos de desculpa e se colocava na frente de conhecidos na tola esperança de ser reconhecido.
O trabalho do Fernando Braga está no livro "Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social" publicado pela Editora Globo. Use-o como colírio para o tratamento da miopia social e procure saboreá-lo sem moderação. ;)
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Escrever é troca e essa troca muito me interessa.