Um dos meus muitos filmes de quase vida inteira é Zelig de Woody Allen. Gosto muito do humor ácido de Allen: ele é daquelas pessoas (ou personagens?) que não fogem da piada e a fazem consigo mesmo. Eu também sou assim e o meu senso de humor é meu algoz e meu salvador e já que estamos nessa vida de passagem, vamos acertar nossas pendências sim, mas que tal uma diversão de vez em quando? Isso porque não dá de vez em sempre. Pena.
A capacidade de rir de nossas incapacidades é algo que aos poucos pode nos proporcionar a aceitação e falo primeiro da aceitação do eu comigo, que é a mais difícil. Nós somos nossos maiores inimigos: nos matamos dia a dia. Quase todos nós somos suicidas em potencial e como a nossa capacidade de se suportar é mínima, acabamos transferindo para o outro toda a responsabilidade de nos suportar. Mas como atrair o outro para a nossa rede? Ah, essa é fácil, basta ser um pouco como o outro e narcisos que somos, adoramos ver a nossa imagem e semelhança espelhada.Buscamos quase sempre identificação e poucos são capazes de promover a diversidade.Claro que tem o outro extremo: procuramos nos associar ao nosso oposto até como uma forma absurda de exercer nossa prepotência.
Zelig está no primeiro caso: um artista camaleão que se transforma física e mentalmente naquele que estiver na sua companhia. Ele se macaqueia na ânsia de agradar e vira literalmente o outro. E agradar para os camaleões que existem aos montes por ai é isso: se travestir do outro. Só imitar para ser aceito. Eles só se esquecem de uma coisinha mínima que o exercício cotidiano do mimetismo, do mundo control c/ control v/ del sem compromisso, a gente acaba se perdendo da pessoa mais preciosa que existe. E esse alguém somos nós mesmos. Ah, e da delícia que é de conviver no exercício diário de eliminar neuras e fantasmas e ser cada dia mais uma pessoa mais leve, mais zen, mais eu.
Para muitos, estamos num planeta de provas e expiações, mas o final de tudo é superação e fe-li-ci-da-de. Afinal de contas, se não acabou bem é porque ainda não chegou ao fim.
Vênus. Apenas uma mulher que sabe um pouco o que é, mesmo sem saber o que quer.
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Escrever é troca e essa troca muito me interessa.